10 desenhos infantis inteligentes e que promovem a igualdade

Helena tem um ano e oito meses, um bebê, então ainda não vivo naquela linha do pavor que muitos pais se encontram lá pelos 3 anos de idade: o amor pelos desenhos e filmes. Ela gosta muito, dança, espera, é fofo de se ver, mas ainda não chegamos ao ponto dela pedir produtos da franquia ou querer ver X coisa em Y momento.

Não acredito que TV, tablet e celular são os vilões, acho que com parcimônia são benéficos, na verdade. Meu problema está no conteúdo.
Porque produzem material tão ruim para crianças?? Como pessoas que trabalham com o público infantil podem caracteriza-los com tão baixa expectativa? Crianças merecem conteúdo de qualidade. Desenhos e filmes igualitários, longe de sexismo, que desenvolvam a criatividade e relações positivas.

Precisamos mudar a forma como crianças consomem desenhos, porque se os adultos de hoje estão criando o mundo azul e rosa que acreditam ser correto: para tudo! Muda tudo!

Pensando nisso, fiz uma lista de 10 desenhos que procurei muito sobre e vemos aqui em casa.
Muitos são disponibilizados no Youtube [ ❤ ] e no Netflix, que aliás, é a melhor coisa que você vai contratar na vida.

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1. O Show da Luna

Está é uma produção nacional, ponto positivo, que tem como protagonista uma menina chamada Luna, que é como toda criança: uma cientista. Ela, seu irmão Júpiter e o furão Cláudio – sim, como o Imperador Romano historiador e escritor – vivem aventuras para solucionar a maior questão do desenho “Porque isso está acontecendo?”.
Primeiro temos um desenho muito bem feito, tanto artisticamente, quanto em roteiro. Os diálogos são divertidos, os assuntos sempre muito interessantes, a ponto de que a família se reúne na sala para ver junto.
Em segundo, temos uma protagonista menina, que usa roupas normais, nada rosa, nada fofo, nenhum esteriótipo. Ela ama seu irmão e se aventura com ele. A família de Luna não só incentiva, como participa dos experimentos. As questões são reais e a argumentação é sempre muito bacana.
Um desenho que incentiva perguntas, descoberta e a real exploração do potencial infantil é sempre fantástico.

Um dia você vai estar lá, fazendo algo e cantando mentalmente “Eu quero saber, porque o gato mia…”.
É o desenho preferido da Helena, que agora vive uivando para a Lua e fala Luna para tudo. Nós também amamos.

Você pode ver pelo Youtube.

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2. Que monstro te mordeu?

O número dois também é brasileiro e é um dos desenhos mais lindos que já vi. Não é para crianças muito pequenas, já que sua temática é bem reflexiva.
Lali é uma menina meio monstro que foi convidada para o concurso Monstro do Universo por seu amigo Romeu Umbigo. E é nesse mundo cheio de monstros coloridos, um cenário maravilhoso, músicas originais e divertidas, que vemos Lali se deparando com sentimentos que podem transformar humanos em monstros quando não discutidos.
Na história temos temas como inveja e raiva, sempre abordado de forma muito lúdica e sincera.

É um dos desenhos mais bem produzidos que já coloquei os olhos. É o tipo de projeto que qualquer um venderia a alma para participar.
Ele passa na TV Cultura [ ❤ ] e além dos 50 episódios para TV, também tem 50 episódios no canal do Youtube!!!

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3. Bino and Fino

Este é um desenho produzido na Nigéria e que infelizmente não possui tradução ou legendas em português, mas a importância dele já se mostra exatamente por isso: conhecemos apenas uma versão da história do continente africano.
Faz alguns dias que vi o TED da escritora nigeriana Chimamanda Adichie que fala sobre os perigos da história única, como somos apresentados sobre uma versão dos fatos e criamos esteriótipos perigosos; e este, acredito, é um caso que se repete em desenhos infantis.
O desenho conta a história de dois irmãos que são criados pela avó e é um retrato muito colorido, divertido e inteligente do que [agora] acredito ser a realidade na Nigéria.
Mesmo não sendo em português, é um inglês bem simples e dá para ver com os filhos, já engatando uma tradução simultânea se for necessário.

Você pode ver vários episódios no Youtube.

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4. Charlie e Lola

Amor entre irmãos é sempre meu foco quando quero saber se um desenho é bom. Já não basta a cultura de rivalidade que adoram colocar e a realidade, que também nem sempre é fácil, então desenhos que apostam nisso ao invés do amor romântico para crianças, sempre ganha meu coração.
Lola é uma menina muito, muito energética e cheia de imaginação e, felizmente, possui um irmão carinhoso, que lhe ajuda a dar asas para suas histórias.
O mais legal é ver como eles constroem as histórias. Muito simples, muito doce e sempre com situações onde Charlie explica pacientemente coisas para Lola. Gente, sério, isso é legal!

Lola também possuí um amigo imaginário chamado Soren Lorensen, que já me ganha pelo nome.

Tem no Netflix!

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5. Milly e Molly

Este desenho produzido pela Discovery Kids é uma adaptação da obra da neozelandesa Gill Pittar, que tem livros lindos e não poderia ter um desenho de menor qualidade.
É muito, muito raro encontrar desenhos cujo protagonista não seja branco. O erro é em fazer com que crianças vejam desenhos que não condizem com sua realidade. O mundo não possuí só uma cor, uma língua e uma forma de ver as coisas. Essa é a grande importância de buscar desenhos com diversidade e que respeitem isso de forma leal. Este é o caso.
Milly e Molly vivem aventuras, mostram o valor da amizade, discutem assuntos sobre a vivência infantil, quando tantos sentimentos e problemas estão se apresentando pela primeira vez.

Você pode ver alguns episódios no Youtube.

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6. Meu amigãozão

Produzido por dois estúdios, um brasileiro e um canadense, esse é um daqueles desenhos lindos de se ver. Com uma arte impecável, um roteiro legal e histórias que ensinam o valor da amizade; passeia por questões como egoísmo e brincadeiras que não funcionam. Esse é um desenho que costumamos ver raramente aqui em casa, mas não porque ele não é bacana.
Talvez, sendo bem radical, Lili não precisava no desenho sonhar tanto em ser princesa. Só. O restante é muito bacana e Yuri, o personagem principal, possuí o melhor amigãozão da história! Gente, juro que queria ter um elefante azul gigante.
E é basicamente isso, cada personagem tem seu amigo e com eles vive aventuras, promovendo uma linda sensação de trabalho em equipe e de como podemos buscar experiências inusitadas em lugares óbvios.

Tem no Netflix!

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7. Garota Supersábia

Rita Bastos [sim, ela é latina!] é uma super-heroína que combate os vilões dando uma aula de português. Pronto, em uma frase resumi o quão bacana é esse desenho.
Temos uma menina latina, que se parece uma menina latina, o que é mais raro ainda, que caiu na Terra junto com seu macaco, O Capitão Caretas. Não bastante, os vilões tem nomes como: Doutor Cerebro de 30 Rato, Teodoro Tobias 3º e Dona Redundância.
É um desenho muito bem produzido, escrito, divertido, com sentido e a representação dos personagens e da heroína é fantástico.

Você pode ver vários episódios no Youtube.

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8. Peg+Gato

Você está vivendo e começa a música: Peg e o Gato, Peg e o Gato, Peg e o gato, Peg e o Gato.
Veja e depois me conte como você vai dormir com isso na cabeça. Adeus, Caetano. Adeus, bom gosto musical, vai ser Peg e o Gato.
Mas tudo tem um bom motivo e são raros os desenhos que abordam matemática de forma tão legal.
Esse é um desenho para crianças pequenas, que consegue conversar sobre números de forma didática e divertida. A arte é linda, acho muito bom quando desenhos usam a dinâmica de que aquilo poderia ter sido rabiscado por uma criança.

Você pode encontrar no Youtube.

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9. Inami

Está é uma produção francesa, mas conta a história de um jovem índio na Amazônia. Passa na TV Cultura e é um dos poucos desenhos que conheço que possuem essa temática.
Por algum motivo estranho, nosso país não consegue conceber produções infantis contando como são os verdadeiros brasileiros, aqueles que moravam aqui antes do Homem Branco chegar, mas estamos torcendo para que isso acabe logo.
O desenho não foca em relações familiares, que era o forte da cultura indígena, prefere o velho argumento do menino apaixonado pela menina, mas para pessoas que querem que os filhos tenham contato e apreciem um desenho divertido, que não é absurdo como a maioria, indico sinceramente.

A TV Cultura passava em 2014, mas olhei aqui e nada de novos episódios. Então recomendo procurar no Youtube.

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10. Tromba Trem

Mais um brasileiro para a lista, só que este tem uma das histórias mais bacanas que já vi [e tanto socialista, vá].
Gajah é um elefante indiano que se perdeu e vai parar na Floresta Amazônica. Sem memória, ele conhece uma tamanduá chamada Duda, que é super simpática e vegetariana. Depois de entrar numa disputa com uma colônia de cupins cuja Rainha tem certeza que é de Kapax, eles viajam pela América Latina.
Cada episódio se passa num país e é muito divertido. Em cada lugar tem um novo personagem, que caracteriza a cultura local e Duda é sempre muito doida.
Ok, eu fico vendo esse desenho. Me julgue.

Você pode acompanhar pela TV Cultura.

E é isso. Logo mais faço uma lista de filmes e outras de jogos.
Liberei a pessoa doida por listas que mora no meu coração.

Todo mundo é boa mãe até ter filhos

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Cena clássica de shopping: você está andando com as pernas bem torneadas que Deus te deu, quando se depara com a cena lastimável da instituição falida que é a família. A mãe está meio descontrolada, aparentando sinais contundentes de choque por terror, o pai olha para os lados, buscando um possível olhar de repulsa ou quem sabe a resposta para como educar aquele pequeno ser. Por fim, o óbvio, o horror, aquilo que seu olhar se distanciou no primeiro momento por instinto de preservação: a criança jogada no chão, roxa, babando, com o pescoço virado no melhor estilo Exorcista. Geralmente está gritando “Eu quero” ou “Não, não vou”.

E tu, um ser centrado, maduro, no completo controle de sua vida pensa [e um dia irá verbalizar] “Nossa, meu filho jamais fará isso!” ou quem sabe “Isso é falta de pulso filme”.

Te digo uma coisa caro leitor, o único punho que conhecerás será o da vida, regiamente plantado entre sua raiz capilar e nariz.

Sim, já pensei isso. Sim, já verbalizei. Sim, adorava tirar vantagem das situações onde mães passavam por isso, era uma forma de me autoafirmar como a ótima mãe que seria. Mas o tempo passa, aquele lindo bebê que você achava que dava trabalho descobre que limite existe. E ele existe para ser arduamente testado. Exaustivamente flexionado. Integralmente esmurrado para dentro da sua realidade.

Todos sabem que junto com o Boi Tatá, Cuca e Saci Pererê, as crianças povoam o folclore brasileiro no papel de aterrorizar. A criança do shopping poderia ser tema de filme de terror, porque é isso que somos ensinados desde cedo: sou uma ótima mãe – até ter filhos. Ou melhor, não tenha filhos! Choro, gastos exorbitantes de dinheiro, peito rachado, parto traumático, casamento falido… Filhos é o oposto de sucesso profissional, financeiro e pessoal.

Hoje em dia, sempre que vejo essa cena, minha vontade é ir até a mãe, abraça-la e chorar junto “Eu sei, querida, dá vontade de pular da janela… Mas olha… Isso… Chora… Solta essa angústia… Eu sei, também já fui aquela moça ali da esquina da loja de sapatos”.

Afirmo com total convicção que para mães mais felizes é necessário uma sociedade que pare de elevar a maternidade ao ato divino de ser feliz num mundo cheio de algodão doce. Dizem que a maternidade é linda, cheia de coisas maravilhosas, ao mesmo tempo que uma outra parcela prega a demonização da infância. Além de ser uma baita contradição, colocam as mães e pais num lugar onde sofrer é um ato de felicidade.

Me fala, quando você quebrou o braço: foi legal?
Quando bateu o carro e teve que gastar o dinheiro das férias: foi o auge da sua realização?

Então deixe as mães e pais serem infelizes. O velho “Aceita que dói menos” é a máxima realidade.
Essa cultura semeou pais que mentem sobre seus real estado de ânimo e assim se sentem cada vez mais oprimidos. Como se fosse errado não querer chorar junto com o filho quando ele tenta pela milésima vez pegar o sapato de 400 dilma da loja ou joga o prato de comida no colo da visita. É normal. É fase. Vai passar. Mas enquanto está acontecendo é horrível.

O fato como aquele pai e mãe irá educar o filho é realmente problema dele, mas é problema nosso o que fazemos com a instituição “criar filhos”.

Nunca na minha vida soube tanto a diferença entre teoria e prática. Na teoria sei que minha filha está testando os limites quando tenta enfiar o dedo na tomada pela quinquagésima vez no dia, mas no número cinquenta um, mim, que já começa a conjugar errado verbo, adulta e extremamente conhecedora da teoria, solta um grito de “Você vai tomar choque para aprender menina!”. Vou lá e tiro, mas na minha imaginação, foi diferente.

Por observação [no espelho] e dos casais que vejo, os primeiros cinco anos da criança é meio… contundente. Se houver casamento no meio, chamaria de homicídio culposo, sem intenção de matar, mas que mesmo assim esfaqueia o controle no peito.

Seu filho é o anjinho que você pôs no mundo e provavelmente aquele texto rosa, linda, diiiivinoh, estava encobrindo os fatos. Crianças não são ruins, eles só estão descobrindo realmente – realmente mesmo – o mundo e com isso vem todos os testes e experimentos perigosos que você vai eventualmente não permitir. Ensinar a controlar os rompantes de frustração e raiva e desenhar formas menos perigosas de se divertir. A infância é mesmo linda, principalmente se você souber entender os momentos que a chuva caí torrencialmente sobre o paraíso.

É normal. Podemos falar sobre isso. Você pode se sentir infeliz. Você pode chorar.

Vem cá, vamos nos abraçar na porta do shopping.

Sofia fica com o pai – Porque ser mãe não é possuir os filhos

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Texto de Micaela Garcia.

Quando decidi romper um relacionamento de quase oito anos veio o principal questionamento: E a Sofia? Minha filha já tinha seis anos e nunca viveu longe dos pais, tinha casa, quintal, cachorro e bicicleta. Sempre foi uma garota feliz, comunicativa e ativa.

Após a separação, não tinha condições de assumir a responsabilidade pelos cuidados dela, não ganhava o suficiente nem mesmo para me sustentar, quiçá a uma criança em pleno crescimento. Trabalhava em horário comercial e ela estudava meio período.

Ainda não concluí a faculdade, então constantemente não poderia estar com ela à noite para poder terminar meus estudos. Além disso, o que pesou muito, veio o principal: o relacionamento da Sofia com o pai era maravilhoso, ela era simplesmente apaixonada por ele e ele por ela. Ele sempre foi um pai dedicado e presente, modelo qual eu ficaria contente em ver todo homem seguir. Era presente na escola, acompanhava o desenvolvimento dela em todos os aspectos, era tão mãe quanto eu, se não mais.

Nós dois desempenhávamos o mesmo papel na educação dela, éramos presentes de modo igual e a amávamos na mesma intensidade. Ele trabalhava em casa e já cuidava dela sozinho nos momentos em que eu não podia estar.

A decisão da separação partiu de mim, e senti que era no minimo cruel se, além de tudo, e conhecendo as possibilidades de cada um como conhecia, eu a afastasse dele.

Entre análises e choros veio a decisão: Sofia fica com o pai.

Chorei mais do que em qualquer momento da minha vida, me senti culpada muitas vezes e por outras me senti uma mãe ruim, como se abrir mão de sua presença cotidiana significasse que me importava menos com ela, pois eu deveria fazer de tudo para tê-la comigo, não? Não. Minha função primordial como mãe não é tê-la sob minhas asas, é garantir que ela tenha a melhor qualidade de vida e como pude perceber nos meses seguintes isso ela tinha com o pai. Quando eu entendi que o que me fazia mal era muito mais a pressão social do que o medo de estar longe dela a situação começou a se reverter. Afinal eu não estaria longe dela, nos falamos por telefone, eu a visito sempre e em breve ela começa a vir passar o fim de semana comigo na minha nova casa.

Na época ela chorou, demorou um pouco para que compreendesse o que significava minha separação do pai. Mas por fim entendeu que tudo o que vinha acontecendo e mudado nos últimos meses era em nome da felicidade de todos, da minha,de seu pai e a dela.

Já faz alguns meses que moramos separadas e perdi coisas preciosas nesse período. Ganhei a experiência da abnegação genuína e do que o amor de uma mãe por sua filha é capaz de supor e suportar.

Amo minha filha como nunca amei outro ser humano, e justamente por isso é que não poderia e não posso me fixar num egoísmo desumano de querê-la para mim. Seu pai lhe tem tanto amor e cuidado quanto eu, e independente de qual fosse a decisão alguém iria sofrer, e muito.

Decidi que tinha melhor estabilidade para lidar com essa separação do que os dois.

Não me sinto menos mãe porque não a acompanho diariamente, me sinto mais mãe do que era antes, tão mãe quanto a mulher que decide pausar a vida profissional e acadêmica em nome dos filhos.

Pelo que vejo até aqui eu não estava errada, e cada vez que falo com minha filha e ela encerra a ligação com: você é a mãe mais maravilhosa do universo; eu tenho certeza que fiz a coisa certa.

Porque ter filhos num mundo como o nosso

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Eu tenho medo de dormir.

E esse é um fato que não costumo contar à milhares de pessoas, porque aqueles que deitam a cabeça no travesseiro e dormem profundamente dificilmente conseguem compreender o que é o pavor de quando seus olhos começam a fechar de exaustão. Esse medo foi cultivado por umas série de acontecimentos e um deles foi a morte da minha primeira filha.

Quando cheguei no velório, no dia 10 de dezembro de 2008, expulsei toda as pessoas da sala por alguns minutos. Não havia pego minha filha no colo viva e aqueles seriam meus últimos instantes com ela. Tudo havia sido causado por uma série de descaso e violência e jurei que nunca mais iria engravidar. Não queria ter filhos num mundo com pessoas tão podres.

Não queria perpetuar uma espécie que mata e tortura pela cor, idade, opção sexual, religião ou pelo simples fato de não concordar com algo.

E vivi assim durante quatro anos, até que um dia o exame de sangue apontou que estava grávida. Isso aconteceu no dia 13 de dezembro de 2012 e entrei em pânico. E sim, havia a possibilidade de poder não seguir à diante com a gestação, mas a decisão de continuar não foi baseada em nenhum aspecto religioso ou moral, foi unicamente pela convicção de que ali morava a chance de um mundo melhor.

Constantemente me pego olhando Helena dormir, com um pavor crescente na garganta. Ainda pequena, com um ano e meio, ela sempre pega alguma bolsa e “tchau mãe”. Saí andando e acenando com a mão, até virar a esquina do corredor e voltar correndo. Um dia minha filha dirá isso e não voltará, irá viver a vida com sua dose de alegrias e tristezas.

Não posso garantir que jamais irá se machucar ou que um dia não irá derramar lágrimas amargas, mas tenho certeza que irá ver um pôr do sol no fim de julho de arrancar suspiros, sei que irá amar alguém com todas as forças e torço todos os dias para que consiga lhe passar o que é empatia.

Criamos filhos com a esperança de um mundo melhor, onde exista mais tolerância e amor. Somos guiados pela fé constante que apesar de tudo, viver ainda é bom. Que gerar vida e criar um ser humano tem propósito. Criamos filhos para um mundo melhor, que será moldado pela força positiva de suas ações.

Nada me garante que um dia não irei receber um telefonema que irá avisar que minha filha já não respira. O medo sempre irá me perseguir, mas posso caminhar com ela e sempre oferecer a mão por estradas sinuosas. Nada me garante que um dia não vou receber um telefone me avisando que minha filha feriu alguém, mas posso me esforçar ao máximo para passar o que é bondade, tolerância e responsabilidade.

Não importa qual seja o destino, todos os seres humanos que caminham na Terra já foram um bebê frágil e necessitado de atenção. Já caiu de bunda no chão quando foi tentar andar e falou todas as palavras erradas antes de conseguir pronunciar sua primeira frase. Todos nós somos ensinados. Ninguém nasce intolerante, isso é plantado aos poucos.

O único motivo que posso afirmar com total tranquilidade para se ter filhos num mundo como nosso é que todo ciclo deve ser quebrado. Se você quer um mundo melhor: seja essa mudança e crie outro ser humano para ser o bem que você quer ao mundo. Ensine outras pessoas a serem bondosas e tolerantes.

Pegue uma caneta e rabisque em algum lugar um poema que conte como é bom fazer o bem. Olhe para o céu e veja naquelas cores um bom motivo para existir. Chore e supere a dor, porque não existe nada mais belo que participar dessa vastidão.

De onde nascem as mães

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Quando criança meus pais me explicaram primeiramente que uma cegonha tinha me deixado em casa. Parece absurdo, mas essa foi a explicação que tive durante um tempo. Logo depois, enquanto esperava meu pediatra, havia na parede um quadro de um lindo bebê usando uma faixa florida na cabeça, saindo de um lindo e gigante repolho. Claro que questionei aquilo e novamente me foi dada outra explicação para de onde vêm os bebês: repolhos.

Demorou mais alguns anos até a explicação da sementinha que fica no útero da mamãe encontrar a semente que vem do papai e até esse dia chegar a certeza era de que repolhos eram mágicos. E por mais tempo ainda, até Helena nascer, achei que a frase de que quando nasce um bebê, nasce uma mãe, era a coisa mais linda do mundo. Até que também notei a falha nessa lógica que coloca mulheres como seres super preparados para a maternidade. Só que não.

Quem nunca viu um quadro de mães com cabelos lustrosos, exímias donas de casa, mães aplicadas, profissionais charmosas e que ainda dormem com o rosto hidratado e cútis impecável. Tais mulheres certamente saíram daquele mesmo repolho mágico e estão nos mesmos livros que os lindos unicórnios, porque nunca vi alguém assim e tenho medo de encontrar na fila do pão.

Helena nasceu numa noite fria e de chuva e enquanto esperava ela no quarto do hospital fui ficando em choque. Quando finalmente vi aquele bebê pequeno, comendo o próprio cobertor e completamente sem jeito, levei-a ao peito para se alimentar. Naquela primeira fisgada de dor da amamentação, soube que não estava nascendo com ela nenhuma mãe e que seria um longo caminho de autoconhecimento.

Apesar de toda alegria e felicidade, não vi ali um momento rosa como em tantos textos li. Vi semanas de superação, de dor, de desafios, noites sem dormir, dias se adaptando e com isso o amor que já estava ali, cresceu, ganhou força e me fez mãe.

E a melhor resposta que tenho para isso é a quem me colocou nesse mundo, minha mãe. Ela não queria engravidar aos 15 anos do meu irmão, mas a minha gravidez foi muito esperada, como uma esperança de estabelecer o casamento. Fui uma criança absurdamente mimada num lar onde a maternidade era exigida com perfeição e a paternidade apenas garantia o sustento da família. E agora, mais velha e mãe, entendo como a maternidade compulsória foi forçada garganta abaixo da minha mãe e ela se agarrou com todas as forças nisso e não houve um momento de adaptação.

Nós seres humanos, mulheres, somos programadas para se adaptar. Está no nosso sangue, em cada célula de nosso corpo, mas jamais fomos feitas para se reconstruir e ser uma pessoa completamente diferente em poucos meses e dias.

Mães sentem sono, ficam tristes, sentem um cansaço enorme. Falhas, dúvidas e estão num processo incessável de aprendizado e superação. E temos todo dia que ouvir que não existe essa pressão em nossas cabeças: quem pariu que crie sozinha.

Isolam o bem estar de um ser humano a uma única pessoa, colocando o pai num papel secundário e toda a família como meros expectadores dos dramas familiares alheio.

Maternidade é uma construção, uma das mais complexas que um ser humano pode passar, porque vai interagir com um tipo de amor tão visceral que pode destruir na mesma proporção que garante a vida. Quando dizem que uma mãe daria a vida por um filho, jamais iria discordar, mas essa mesma abnegação pode transformar uma mulher em cinzas.

Vi gerações de mulheres conformadas e que abriram mão de tudo que gostavam por filhos, casamento, pela casa e pelo status mágico de que o ápice da vida de uma mulher está num sofá, amamentando, com um bolo sendo assado no forno. Sendo que não, isso não funciona para todas, nenhum tipo de pressão social funciona para nenhuma individuo com sonhos e personalidade única.

Vi por anos minha mãe tomando todas as decisões para o meu bem e isso me causava dor, porque eram noites dela chorando, gritando, frustrada por não seguir seus sonhos, por não conseguir aceitar a mãe que ela podia ser, mas querendo pertencer ao mundo das mães perfeitas, sem conseguir, nadando num mar que sempre morre na praia.

Então hoje, quando leio a velha frase do nascimento de uma mãe, faço questão de reescrever: quando um bebê nasce, nasce o maior amor do mundo. Nasce a possibilidade, nasce sonhos e o caminhar de mais um destino que tomará suas decisões. Com ele, aos poucos, caminha uma mulher que irá ser mãe.

E quando vemos, estamos lá, levantando para ver se aquele pequeno ser está respirando, porque o mundo precisa que aquele coração continue batendo.